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Ecossistema de Ecossistemas baseados em Plataformas

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Ecossistema de Ecossistemas baseados em Plataformas
Como construir ecossistemas de ecossistemas baseados em plataformas

Em outros artigos já debatemos, talvez de forma não exaustiva, o que é um ecossistema. Porém, você já parou para pensar o que é um ecossistema de ecossistemas? Este artigo vai falar sobre este tema e como sua empresa ou instituição deve prestar atenção nesta abordagem para pensar o futuro da sua organização e a possibilidade de adotar modelos de negócios baseados em plataformas.

Ecossistema

Um ecossistema em administração pode ter diferentes significados, mas em geral cada ecossistema vai descrever a sua razão de existir, um ecossistema de inovação tem como objetivo conectar atores com a finalidade de gerar produtos e serviços inovadores.

Já em um ecossistema empreendedor, o objetivo é gerar novas empresas, e para isso uma quantidade bastante grande de participantes é necessária, além de ótimas instituições de ensino, onde o conhecimento de ponta é geralmente e onde os recursos humanos para criar a inovação são formados, também é preciso que o governo possua uma diversidade de linhas de fomento, desde investimento de alto risco, até fomento ao desenvolvimento de modelos de negócios, produtos e serviço consolidados. Empresas, startups, incubadoras, aceleradoras, parques tecnológicos, escritórios de propriedade intelectual, todos fazem parte desse ecossistema.

Independente do tipo, um fator importante para que um ecossistema seja de fato um, é a capacidade dos atores participantes desenvolverem produtos, serviços e ativos complementares. A complementariedade é uma das características fundamentais de qualquer ecossistema. A complementariedade pode surgir do lado da produção ou do consumo. No lado da produção dois fornecedores criam produtos e serviços diferentes, mas que juntos criam mais valor (e.g.; fabricantes de carros e fabricantes de pneus), já no lado do consumo, os consumidores usam dois produtos de maneira complementar (e.g.; um smartwatch e o APP de corrida de outra empresa, além do sistema operacional sobre o qual este funciona – Android OS).

Estas complementariedades podem ser genéricas ou não-genéricas, a primeira ocorre quando os itens se complementam, mas também podem existir de maneira isolada (e.g.; chaleiras e saquinhos de chá). As complementariedades não-genéricas ocorrem quando um item precisa do outro. Complementariedades não-genéricas, ou especializadas são direcionais, onde um ativo aumenta o valor do outro, mas não o contrário (e.g.; Android OS e APPs de terceiros). Ativos co-especializados são bidirecionais, onde as complementariedades só possuem valor juntas (e.g.; máquinas de café da Nespresso e as capsulas de café).

Por fim as complementariedades podem ser supermodular e não-supermodular. No primeiro caso quanto mais ativos de um tipo, mais aumenta o valor do outro (e.g.; o console PlayStation da Sony e jogos desenvolvidos por terceiros). No caso da não-supermodularidade, este efeito não ocorre.

Agora guarde bem estes conceitos, pois iremos voltar a eles mais adiante. Vamos agora falar de ecossistemas urbanos ou de cidades.

Ecossistemas urbanos

Também existem os ecossistemas urbanos, que são aqueles formados dentro de cidades. Podendo ser compostos de áreas industriais, arranjos produtivos, como clusters locais ou até mesmo cidades inteiras. Provavelmente você já ouviu falar de alguns deles, como o Vale do Silício, o 22@Barcelona, ou o Ruta N. Lógico que os ecossistemas urbanos podem envolver diferentes aspectos de sustentabilidade, que envolvem fatores econômicos, sociais e ambientais, e sem dúvida alguma, todos eles são relevantes.

Contudo, neste artigo quero focar na dimensão econômica dos ecossistemas urbanos, ou seja, aqueles que pensa no aspecto de negócio. Mas lembre que as outras dimensões não devem ser deixadas de lado, apenas vou limitar ao tema econômico em função do espaço que temos neste artigo.

A dimensão econômica dos ecossistemas urbanos não está desconectada das dimensões sociais e ambientais, e deve pensar na formação de recursos humanos, disponibilidade de recursos financeiros, qualidade de vida, emprego, qualidade do ar, qualidade das habitações disponíveis, entre outros pontos relevantes.

Quando falamos de ecossistemas urbanos estamos falando de ambientes extremamente complexos para que um único ator, empresas, governo ou instituição consiga realizar todas as ofertas e contemplar todas as demandas necessárias para este tipo de ecossistema. Por esta razão é preciso não apenas uma visão sistêmica, necessária para perceber o todo, mas também especializada, para resolver problemas pontuais, e é nesse contexto que surgem os ecossistemas de ecossistemas.

Ecossistemas de ecossistemas

Como o nome diz, ecossistemas de ecossistemas são aqueles formados por diversos ecossistemas complementares. Em uma cidade não há dúvida de que existem diferentes produtos e serviços que se complementam. Muitos estudos já identificaram que conhecimento é necessário para inovação, então uma cidade com instituições de ensino forte e reconhecidas tem potencial de gerar conhecimento para a inovação, e junto com elas também é formada a mão-de-obra, mas estas instituições podem ter dificuldade para investir em pesquisa de base, uma das principais fontes de conhecimento de ponta, pois estes projetos são arriscados e não costuma ser propício para empresas que precisam dar lucro investir neste tipo de estudo.

Por esta razão as cidades também devem ter acesso a recursos financeiros de fomento a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação com diferentes níveis de aceitação ao risco. Contudo, estes projetos em algum momento devem gerar a criação de riqueza, e ninguém melhor para fazer isso do que as empresas, que em geral buscam estratégias de exploração de riqueza, otimizando custos e garantindo o retorno para os investimentos.

Apesar destes fatores, existem outros pontos a se considerar, atualmente cidades concorrem com outras ao redor do mundo. Dependendo da cidade onde você vive, você sabe da dificuldade de conseguir profissionais capacitados, muitos deles acabam indo embora, para locais mais atraentes, até mesmo ao redor do mundo. Por isso um ecossistema urbano deve investir na permanência e atração de mão-de-obra qualificada e para isso qualidade de vida é fundamental.

Transporte público de qualidade, paisagismo, coleta de lixo, eventos culturais variados e de qualidade, entre outros, são fatores fundamentais e tarefa de todos. Mas as empresas também têm seu papel, jornada de trabalho, remuneração adequada, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, mecanismo de segurança do trabalho, entre outros, são tarefas das empresas e em muitos casos ela não deve esperar pelo poder público para agir. Nas instituições de ensino cabe ressaltar o incentivo a relação com as empresas, busca de linhas de fomento privado, bons professores, relação com a comunidade, além de outras demandas.

Claramente cada um destes atores é parte fundamental e em muitos casos um ecossistema por si só, formando um grande ecossistema que é a cidade. Porém estes grandes ecossistemas possuem um desafio que é lidar com esta complexidade e por esta razão que este grande ecossistema precisa ser dividido em partes menores, mas não apenas isso, eles precisam ser escaláveis.

Ecossistemas escaláveis

Um sistema é escalável em termos do seu modelo de negócio, se ele consegue aumentar sua receita ou o número de usuários de forma exponencial em relação aos custos. Um exemplo de sistema que não é escalável é um sistema linear, onde também é possível crescer o sistema, mas os ganhos sobem em geral na mesma proporção que os custos ou pelo menos não de forma exponencial.

Para que um sistema possa escalar é preciso o uso de tecnologia. Como exemplo podemos citar as fábricas que operam cada vez mais dentro da tecnologia 4.0, impulsionadas não apenas por robôs, mas também por inteligência. Não é à toa que entre os maiores negócios do mundo, boa parte seja digital (e.g.; Google e Facebook), mesmo para aqueles que envolvem a intermediação de ativos (e.g.; Amazon).

Uma das arquiteturas tecnológicas que podem ser utilizadas pelos ecossistemas escalarem são as plataformas. Plataformas são utilizadas com a finalidade de facilitar a intermediação ou o desenvolvimento de complementariedades entre os atores. As plataformas de intermediação servem apenas para intermediar negociações, facilitando e otimizando o processo, em resumo reduzindo os custos destas transações usando algum tipo de tecnologia e sistema de regras.

Em plataformas de inovação, a conexão entre os atores é feita para garantir o desenvolvimento de complementariedades. Nos anos 60 a GM foi a primeira empresa a utilizar o mesmo chassi de veículo para tipos diferentes de carros, o ganho de escala foi considerável e diferentes empresas passaram a adotar o chassi como um tipo de plataforma onde outros modelos poderiam ser criados otimizando os custos e mantendo o processo de inovação.

Vamos entender onde tudo isso se encaixa para formar os ecossistemas baseados em plataforma.

Ecossistemas baseados em Plataforma

Atualmente as empresas criam sistemas, como o sistema operacional Android da Google ou o sistema operacional iOS da Apple, onde outros desenvolvedores podem criar e comercializar seus aplicativos. O Android e o iOS são plataformas que permitem o ganho de escala, neles é possível desenvolver complementariedades non-genéricas e supermodulares, ou seja, cada APP novo precisa destes sistemas operacionais para funcionar e cada APP adicionado ao Google Play e a Apple App Store aumentam o valor do primeiro, dando mais alternativas aos consumidores.

Para que um ecossistema seja baseado em plataforma (EBP), ele primeiro deve utilizar algum tipo de tecnologia que permita escalar a solução, em segundo tudo que for desenvolvido dentro do EBP deve apresentar complementariedade não-genérica e supermodular, como descrevemos no primeiro parágrafo desta sessão.

Todavia você pode estar agora se perguntando onde queremos chegar com todas estas explicações, então vamos lá.

Ecossistemas de Ecossistemas baseados em Plataformas

Ecossistemas urbanos são extremamente complexos e precisam ser divididos em partes menores para dar conta dos desafios desta complexidade. Esta divisão é feita utilizando ecossistemas menores, contudo se estes ecossistemas menores não forem escaláveis, ou seja, permitir o rápido desenvolvimento de soluções complementares, não-genéricas e supermodulares para toda a população de uma cidade, eles tendem a fracassar no quesito de resolver problemas específicos em massa.

Vamos utilizar agora alguns exemplos possíveis, entre os quais alguns já existem ao redor do mundo e outro são um trabalho de imaginação no qual você também pode contribuir nos comentários.

Um ecossistema de coleta e reciclagem baseado em plataforma deve contemplar plantas de reciclagem, cooperativas de catadores, órgãos do poder público e outras partes interessadas com um objetivo focal bastante específico, resolver os problemas de reciclagem. A plataforma deve garantir a conexão e desenvolvimento de soluções por parte destes atores.

Neste exemplo trazemos um conceito novo que é o objetivo focal. Em plataformas nem todos os atores precisam possuir a mesma proposta de valor, porém é importante que a plataforma seja desenhada com o objetivo de que todos trabalhem em prol deste objetivo comum, mesmo com propostas de valor distintas.

Um outro exemplo é a necessidade de desenvolvimento de conhecimento de ponta. Uma plataforma que vise conectar pesquisadores de diferentes instituições de ensino e fomentar sua conexão com o mercado pode facilitar no desenvolvimento da solução de forma escalável. Ou seja, ao invés de tentar reformular todo o problema de educação e mão-de-obra de uma região, começamos apenas com uma pequena parte, onde a solução será intermediada através de uma plataforma.

A falta de recursos financeiros para projetos é outro problema recorrente em ecossistemas que não alcançaram certos níveis de maturidade. Uma plataforma que permita conectar empresas com negócios de base tecnológica com o objetivo de obter financiamento para os negócios pode ser uma alternativa para escalar a entrada de recursos nas cidades. Aceleradoras são um exemplo de modelo de negócio que capta recursos, porém ainda estão longe de serem modelos escaláveis, a questão que permanece é como transformar este modelo em uma plataforma onde soluções complementares, não-genéricas e supermodulares possam ser desenvolvidas?

Resolvendo problemas

Existe uma infinidade de possibilidades para novas plataformas. Meu argumento neste artigo foi o de que os ecossistemas de cidades precisam ganhar escala, e para fazer isso é preciso que os ecossistemas dentro dela sejam também escaláveis, que no meu entender é transformá-los em ecossistemas baseados em plataformas (EBP).

EBP permitem resolver problemas específicos, intermediando a interação, mas com foco muito maior do que anteriormente. As empresas que conseguirem desenvolver estes EBP podem inclusive implementar suas soluções de cidade em cidade, pois com uma solução validada, basta a replicação das soluções em outros ambiente urbanos.

Além disso o desenvolvimento de uma solução específica consome menos recurso e tempo de todos os atores envolvidos, e embora em alguns casos envolva a cooperação entre diferentes entidades, as plataformas costumam ser desenvolvidas por um ator focal, que tem total controle sobre o que está sendo feito, desde a tecnologia utilizada até as regras que irão reger todos os membros do futuro ecossistema. Este processo agiliza o desenvolvimento do MVP (produto minimamente viável), seu teste e implementação.

Com os EBP desenvolvidos e em operação basta que as cidades façam a conexão destes ecossistemas com o seu grande ecossistema, ou seja, os ecossistemas de cidades irão se tornar, não um grande ecossistema, mas um ecossistema de ecossistemas baseados em plataformas. Esta modularidade permite rapidamente novos desenvolvimentos, integrações ou remoções de módulos que já não atendem os requisitos desejados, ao invés de passar por longos ciclos de pesquisa e desenvolvimento.

Já as empresas podem atuar de forma pontual em problemas específicos, com soluções adequadas. Isso reduz custos, agiliza a inovação e possibilita modelos de negócios escaláveis sobre plataformas.

Agora quero saber, que outros ecossistemas baseados em plataforma você sugere incluir neste texto como modelo para os futuros ecossistemas de ecossistemas baseados em plataformas?

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