O Futuro do Trabalho

11 de novembro de 2015, a notícia em alguns dos principais veículos de comunicação é sobre os protestos dos taxistas contra os aplicativos de transporte como o Uber. Em São Paulo os motoristas de táxis cobram maior fiscalização por parte da prefeitura aos motoristas deste aplicativos.

Esta fiscalização se torna necessária em função da Lei n 16.279/2015 do Estado de São Paulo que proíbe o uso de carros particulares cadastrados em aplicativos como Uber, Lyft e similares, porém em 05 de dezembro de 2016 o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) julgou que esta lei era inconstitucional.

08 de maio de 2019, os motoristas de Uber e outros aplicativos similares paralisam suas atividades em praticamente todo o mundo, cobrando melhores salários e condições de trabalho por parte destas empresas. Esta data foi escolhida pois é o mesmo dia em que o Uber abrirá seu capital na Bolsa de Valores de Nova Iorque, que tinha previsão de capitar US$ 9 bilhões em seu IPO.

Depois da abertura inicial com as ações sendo vendidas a US$ 45, o valor da ação já caia 7,6% para US$ 41,57. Atualmente o valor das ações da empresa estão em US$ 27,42 (dados de novembro de 2019), e até então nunca haviam superado o valor máximo de US$ 46,38.

O Futuro do Trabalho

Provavelmente você deve ter lido diversos blogs, assistido alguns vídeos e ouvido vários comentários como: “50% das profissões que existem hoje, não vão existir mais nos próximos 10 anos”.

Se olharmos para o passado, vamos perceber que realmente existe esta tendência de trabalhos e até profissões desaparecerem, isto não é novidade e faz parte da evolução da sociedade.

Porém um dos problemas que surge é quando as pessoas acham que o futuro do trabalho está associado a algum tipo de aplicativo, empresa, cargo público ou até mesmo a uma profissão ou conhecimento específico.

O futuro do trabalho precisa de uma análise cuidadosa, pois embora possa parecer fácil dizer que o conhecimento ou a complexidade das tarefas é o que define se um profissional vai se manter no mercado, isso não poderia estar mais longe da verdade.

Tarefas complexas que antes precisavam de profissionais com conhecimento, experiência e know-how, estão sendo quebradas em partes menores que podem ser facilmente realizadas com baixo nível de conhecimento e alto nível de repetibilidade.

As mudanças no trabalho são inevitáveis, mas se, como no relato do começo do texto, acharmos que as leis e os protestos é que vão evitar estas mudanças, estamos nos enganando. O futuro vai nos atropelar, mas apenas se não estivermos preparados, se formos passivos ou se tentarmos remar contra a corrente.

Onde estamos?

As profissões e os trabalhos existem porque ninguém consegue fazer tudo ou saber tudo sozinho, então nossa sociedade dividiu o trabalho em diferentes áreas e profissões que vão sendo preenchidas conforme a demanda da própria sociedade.

Se em um futuro imaginário não precisássemos mais construir coisas, talvez a profissão de engenheiro desaparecesse, se não houvessem doenças, qual a necessidade de termos médicos?

Eis que surge então um problema, pois estamos a algum tempo fazendo a pergunta errada. Questionar qual o futuro do trabalho implica aceitar que existe um futuro para ele. Mas será mesmo que existe este futuro para o trabalho e para as profissões?

Alguns profissionais compreendem as mudanças que estão ocorrendo mais do que outros, mas a maioria acaba por adotar pequenas sugestões de mudanças no trabalho e nas profissões que não condizem com o novo modelo mental que precisamos desenvolver para ter uma melhor percepção de como será o futuro.

O home office (trabalho em casa) é um bom exemplo destas pequenas modificações que não representam o real problema que temos que enfrentar. Deixar os funcionários trabalhar em casa ou ter semanas de 4 dias não é o futuro, são apenas pequenas ações para tentar se adaptar as mudanças, mas não a mudança em si.

Por que alguém precisa de um determinado trabalho ou de um profissional? A resposta para esta pergunta é simples, como já dissemos é porque ela não tem todo o conhecimento para realizar o trabalho que precisa ser feito. Eu não sei como fazer a limpeza dos bicos de injeção do meu carro, então preciso de um profissional que saiba.

Quando falamos de conhecimento talvez isso fique mais evidente. Se nossa empresa precisa instalar um novo equipamento, primeiro precisamos de alguém que saiba fazer a instalação, em seguida vamos precisar de alguém com conhecimento para operar este equipamento.

A medida que robôs e computadores passam a conseguir fazer estas atividades, o trabalho que antes era feito por uma pessoa, torna ela desnecessária, o trabalho e/ou a profissão desaparecem por não haver mais demanda. O instalador e o operador se tornam obsoletos.

Mas não pense que são apenas profissões comuns que estão com os dias contatos, médicos, advogados, professores, engenheiros e todas as demais profissões vão mudar.

Os trabalhos repetitivos que podem ser feitos, aprendidos e repetidos por um computador já são realidade. Um algoritmo para escanear radiografias pode identificar doenças e problemas muito melhor que os olhos de um médico, por mais treinado que este seja.

Ao longo dos próximos anos ainda veremos muitas discussões políticas, éticas, brigas de classe entre outros debates, estas são as tensões que acontecem durante qualquer transformação radical que ocorre na sociedade, mas não quero adentrar nestes debates, pois cada um deles é por si só de complexidade tão grande que necessitaríamos analisar tantas variáveis que este tema serve mais para um livro do que um artigo de internet.

Para onde vamos?

Com as mudanças que estão ocorrendo com o trabalho, sejam elas relacionadas a automação, robotização, inovação, entre outras, existem as chamadas competências que devemos desenvolver para “sobreviver” durante, e depois das mudanças, mas quais seriam estas competências?

Sem dúvida alguma, uma das mais importantes é a competência de ser flexível, mas vamos abordar algumas outras também:

Diferentes formas de se comunicar: a comunicação é considerada uma soft skill, ou seja, uma daquelas habilidades que envolve a personalidade e o comportamento da pessoa. Porém todos sabem, ou deveriam saber, o quão importante é saber se comunicar. Contudo, aqui estamos falando da habilidade de saber utilizar diferentes formas de se comunicar.

Talvez as formas de se comunicar mais óbvias sejam a conversa cara-a-cara, o telefone, o e-mail e o WhatsApp, mas cada dia se tornam mais comuns as videoconferências, a realidade aumentada e a realidade virtual. Podcasts, vídeos, entre outras ferramentas também ampliam as formas de comunicação e assim devem ampliar nossa capacidade de saber se comunicar nestes diferentes meios.

O profissional atual e o futuro devem estar preparados para lidar com estas novas formas de se comunicar.

Maestria sobre os dados: o mundo está cada vez mais cheio de dados, o que não quer dizer que eles representem informações ou conhecimento. Médicos, engenheiros, consultores, gestores, professores, por exemplo, então imersos em cada vez mais dados. Novos estudos surgem a cada segundo, novas ferramentas, livros, fórmulas, algoritmos, etc.

Todos estes dados podem ser utilizados para tratar doenças, construir prédios mais eficientes, capacitar melhor os alunos e resolver os problemas das organizações. O que não quer dizer que transformar dados em resultados relevantes seja um processo simples ou fácil de executar.

Por esta razão que uma das novas competências para os profissionais deste futuro envolve saber identificar, construir, coletar e analisar os dados. Somente esta habilidade permitirá utilizar os dados de forma a gerar conhecimento que possa ser utilizado por estes profissionais para obter resultados.

Novos relacionamentos com a tecnologia: muitas pessoas costumam dizer que os filhos ou os netos sabem mais sobre tecnologias que eles, e de fato isso é verdade, as novas gerações estão nascendo dentro da tecnologia, mas estas pessoas mais “antigas” também vão precisar ser flexíveis e aprender a adotar novas ferramentas tecnológicas.

Com esforço, treinamento e comprometimento qualquer pessoa pode se tornar um usuário avançado de qualquer sistema. Mas mais do que isso, estes usuários devem estar aptos a se tornarem os desenvolvedores dos novos sistemas.

O que não pode ocorrer é continuar achando que as máquinas são apenas ferramentas para os meios, pois elas vão aos poucos tomar o lugar das pessoas na linha de frente das organizações e da nossa vida. Precisamos desenvolver-nos para saber lidarmos com as tecnologias, conviver com elas e construirmos um relacionamento que seja menos antipático e mais amistoso com a tecnologia.

Diversificação: diversos estudos indicam que muitas ideias inovadoras surgem da capacidade das pessoas em conectar áreas de conhecimento diferentes para a solução de problemas ou até mesmo para explorar novas oportunidades de negócios.

A diversificação implica justamente explorar novas áreas de conhecimento, fazer cruzamento de informações, e solucionar problemas da forma que ninguém mais conseguiu prever que poderia ocorrer. Esta diversificação de conhecimentos permite que os profissionais sejam mais flexíveis e valiosos.

Obviamente estas não são todas as competências que os novos profissionais devem desenvolver, mas são um começo para que você comece a repensar sua carreira e onde você deveria focar esforços para garantir um trabalho no futuro.

Trabalhadores do conhecimento

Esta expressão já foi utilizada mais de uma vez para definir as profissões e o trabalho do futuro, mas precisamos compreender o que exatamente ela significa. Um trabalhador do conhecimento tem como principal ativo de sua função o conhecimento que possui para resolver problemas.

Um médico, um advogado, um engenheiro são valiosos em função do conhecimento que tem para resolver problemas com doenças, ações legais, e construções complexas.

Sem este conhecimento não há o profissional. Se este conhecimento estiver disponível para todos, então não existe uma profissão ou trabalho específico que precise de um destes profissionais.

Qual a necessidade que existe em um profissional?

Os profissionais e o trabalho existem porque não conseguimos obter este conhecimento ou trabalho de outra forma.

A muito tempo atrás se você queria fazer um bolo, talvez tivesse que consultar sua avó ou sua mãe para desvendas quais ingredientes deveriam ser utilizados e em qual ordem. Agora você vai até o Sr. Google e pergunta “como fazer bolo de chocolate”, ou do sabor que mais lhe agradar.

Quando você precisa consertar seu carro vai ao mecânico e a um tempo atrás confiava no que ele falava, agora, após receber o diagnóstico, provavelmente consulta o Sr. Google para ter certeza que a solução proposta pelo mecânico está de acordo com o problema apresentado.

O que ocorre então é que uma profissão se torna mais ou menos relevante dependendo da facilidade que temos de acessar um determinado conhecimento ou da facilidade ou dificuldade em realizarmos o trabalho nós mesmos.

Para aqueles que acham que apenas adquirir conhecimento é o suficiente para se manter no mercado, talvez seja importante rever alguns conceitos. A comoditização do trabalho e das profissões, faz com que elas sejam desdobrar e realizadas por sistemas e processos compostos por pessoas ou máquinas que não precisam de todo o conhecimento, e que ao mesmo tempo são mais baratas e eficientes.

Como competir neste mundo?

Os autores do livro O Futuro das Profissões: como a tecnologia transformará o trabalho dos especialistas, Richard Susskind e Daniel Susskind, abordam algumas alternativas para o futuro das profissões.

Um primeiro modelo, que eles chamam de para-profissionais, a alternativa para as pessoas é realizar atividades simples, que foram desdobradas em processos menores, e que são suportadas por sistemas. Um exemplo são os professores que dão suporte a aprendizagem online e sistemas personalizados de ensino.

O segundo modelo fala sobre engenheiros do conhecimento, onde a atividade do profissional é organizar de forma estruturada o conhecimento de especialistas e disseminar este conhecimento, colocando ele a disposição para um grupo maior de pessoas. Esta atividade é desafiadora no sentido de que ela não tem como objetivo apenas lidar com conhecimento estruturado, mas com conhecimento que não está estruturado e é de conhecimento prático apenas por parte de alguns especialistas, o desafio é como transformar este conhecimento tácito em explícito e divulgá-lo de maneira a que mais pessoas possam compreendê-lo.

As redes são uma outra forma de construção e distribuição do conhecimento. Conforme as tecnologias avançam o conhecimento poderá ser desenvolvido em uma rede de pessoas, agregando conhecimentos teóricos, práticos e experimentais. A ideia de inovação aberta se aplica neste caso, porém com custos muito menores que temos atualmente e em um ambiente muito mais aberto, em comunidade e colaborativo.

O conhecimento embarcado está em toda a tecnologia que utilizamos, mas para implementar estas tecnologias em carros, casas, celulares, cidades, óculos, relógios, bicicletas, televisores, e qualquer outro tipo de item, é preciso um profissional capacitado para implementar o software, ou seja, o conhecimento nestes bens.

Por fim temos o conhecimento gerado por máquinas. Neste modelo o ser humano ainda tem um papel fundamental, que é o de criar as máquinas que poderão lidar com a criação do conhecimento.

Até que estes modelos sejam completamente implementados, ainda teremos alguns anos onde os especialistas serão necessários. Contudo, o que podemos nos questionar é se as instituições de ensino estão preparadas para entregar os profissionais que precisaremos no futuro ou se vão acabar entregando no século 21, os profissionais ultrapassados do século 20?

Como e o que estamos ensinando para a geração do amanhã?

Algumas opções de como estamos preparando as próximas gerações já são uma realidade, como são os casos dos cursos online, mas muito mais está para ser desenvolvido e se tornar funcional, como a realidade virtual e a realidade aumentada, além de simuladores que se aproximem em muito de situações reais.

Porém, responder a questões sobre o que deve ser ensinado hoje para o futuro é perigoso, pois se o futuro se provar diferente, podemos ter uma geração inteira sem profissão alguma.

Como foi dito antes, talvez a própria definição de trabalho mude completamente de como a conhecemos hoje. Se as máquinas realmente vão tirar o trabalho do homem, com certeza isso vai acontecer, mas em qual medida não temos como dizer.

Enquanto uma linha de montagem de carros tende a ser cada vez mais automatizada, pode ser que em outras áreas as pessoas sejam indispensáveis.

Enquanto alguns acreditam que a inteligência artificial está dobrando a esquina, outros pensam que ela nunca irá se concretizar. Tudo isso ainda precisará ser visto, revisitado, tanto em termos tecnológicos, quanto legais, éticos e morais.

Que futuro queremos?

Apesar de algumas previsões serem apenas especulação, este texto pode ajudar você a compreender e a pensar um pouco mais sobre o futuro que virá e em qual futuro queremos viver.

Independente do caminho que tomarmos, a liberdade e o acesso a informação e o conhecimento é um marco desejável para o futuro, pelo menos do meu ponto de vista. Ter acesso ao conhecimento pode permitir uma sociedade muito mais culta, informada e com senso de comunidade, no sentido de que todos podemos “trabalhar” para construir algo com mais igualdade e equidade.

E para você, qual é o futuro do trabalho e das profissões, mas mais importante, como você está se preparando e quais conselhos teria para compartilhar?