A Farsa da Inovação Radical

Como fazer inovação radical sem investir centenas de milhares de dólares

Sim, é isso mesmo que você leu. Enquanto diversos especialistas e estudiosos defendem que a inovação radical é a melhor forma de criar disrupção em um mercado, eu vou mostrar que a inovação radical não existe, mas primeiro precisamos entender o contexto.

Inovação Incremental

Provavelmente você já deve ter ouvido falar de inovação incremental e inovação radical. A inovação incremental, na maioria dos casos, é aquela que melhora algum produto, processo ou serviço, mas não a ponto de ser uma melhoria tão impactante que modifique completamente o mercado, o processo ou até mesmo o desejo do cliente querer adquirir o seu produto – e antes que eu esqueça, quando falo em produto, também estou me referindo a processos.

Um dos exemplos de inovação incremental que podemos citar é o iPhone ou, pelo menos, as versões 2 em diante. No geral, a maioria das pessoas vai concordar que o primeiro iPhone foi uma revolução para o mercado de telefones móveis, mas em geral boa parte do que veio depois dele foi apenas melhorias em algumas características, com a mais recente delas sendo a adição de 3 câmeras traseiras, o que facilita entregar uma melhor qualidade em fotos e vídeos.

Atualmente uma indústria que utiliza inovação incremental todo ano é a de automóveis, que todo ano lança novos modelos, mas que principalmente modificam o design – aparência – e adicionam alguns acessórios – quase como os celulares.

Com certeza é mais fácil encontrar inovações incrementais do que radicais, pelo simples fato de que mudar completamente um produto ou processo não é algo simples, demanda tempo, investimento, pessoas com competência para execução e liderança, entre outros fatores. Mas vamos entender as inovações radicais antes de seguir adiante.

Inovação Radical

Eu vou citar alguns exemplos de inovação radical e desmembrá-los, mas você pode fazer este exercício com qualquer produto ou processo que pensar.

Vamos utilizar o caso do iPhone – o primeiro deles – quais características realmente se destacaram nesse aparelho que os demais não possuíam? A tela touchscreen multi-touch com ecrã de 3 camadas, a integração com o iTunes, o design “inovador”, acelerômetro.

Agora que as principais características em relação aos concorrentes foram citadas, podemos observar que a tela touchscreen. Foi descrita pela primeira vez em 1965 em um artigo de E. A. Johnson, mas “apenas” em 1982 surgiu a primeira tela multi-touch desenvolvida por Nimish Mehta. Bom, acho que deu para entender que este tipo de descoberta não foi realmente do Steve Jobs, da Apple ou mérito do iPhone, e se você quiser saber mais sobre a história da tela touchscreen acesse este link.

O acelerômetro já possuia diversas aplicações em 1923, então acho que não precisamos nos ater ao fato de que esta é uma inovação bastante antiga para o iPhone.

O design talvez possa ser considerado um dos itens mais inovadores desta lista, mas mesmo assim, depende muito de quais eram as influências que os designer utilizaram para criar o iPhone, afinal de contas, será que não podemos dizer que “nada se cria, tudo se copia”?

O iTunes é um aspecto interessante em relação ao iPhone, pois ele era um dos serviços da Apple oferecido junto com o iPod, que também é considerado por muitos uma grande inovação.

No final da década de 90, já existiam diversos aparelhos que tocavam MP3, mas eles apresentavam muitos problemas, além de serem grandes. O iPod era pequeno e foi lançado em 2001, mas alcançou o sucesso em 2003 com o lançamento do iTunes para este dispositivo.

Com relação ao iPod, a “inovação” foi conseguir fazer o dispositivo pequeno, graças, principalmente, aos discos rígidos menores da Toshiba – tecnologia que não era nova, mas incremental, nem era da Apple.

O iTunes foi lançado em 2001, um software desenvolvido por Bill Kincaid e lançado pela Casady & Greene em 1999, e adquirido pela Apple em 2000. Neste caso, a inovação não foi da Apple, mas podemos admitir que ela tinha mais know-how e recursos para fazer o iTunes dar certo.

Mas no final foi a união do iPod e do iTunes que garantiu o sucesso de ambas as plataformas. O primeiro não foi uma invenção da Apple, exceto pelo seu tamanho menor. O segundo não foi uma inovação da empresa, mas sim uma aquisição.

Voltando na história, ou não

Nós poderíamos continuar voltando na história de cada inovação radical que você pensar e descobriríamos que antes desta inovação existiria alguma inovação incremental agrupada de forma diferente daquela que até então conhecíamos. Caso ainda me permita citar um outro exemplo, o primeiro carro elétrico foi inventado em 1823.

Habilidade de pensar criativamente

Existe um conceito chamado pensamento criativo ou habilidade de pensar de forma criativa que pode ser definido como nossa capacidade de abordar problemas e soluções juntando ideias existentes em novas combinações (Jiménez e Zheng, 2018).

Já uma inovação radical pode ser definida como o produto, processo ou serviço com performance sem precedentes ou características familiares que oferecem melhorias em performance e custo que modificam os mercados existentes ou criam novos mercados (Leifer, 2001).

O problema desta segunda definição é que ela é consequente, não nos diz como criar uma inovação radical. Esta definição de inovação faz com que ela pareça difícil ou inalcançável para a maioria das empresas sem os recursos para investir em inovação.

Já o pensamento criativo é muito mais simples de implementar, basta juntar as ideias que já temos, processos, produtos ou serviços, e combiná-los que seremos criativos. O que não quer dizer que seremos inovadores.

Premissas e Falácias

Todas as inovações são incrementais.

Juntar ideias existentes – ou até mesmo inovações incrementais – e combiná-las de formas diferentes é criatividade.

A criatividade pode levar a produtos que modificam ou criam mercados.

Logo, combinar ideias existentes ou incrementais pode levar a produtos que modificam ou criam mercados.

Sim, eu sei, a inovação é um processo. Se você colocar para dentro deste processo ideias ruins, vão sair produtos ruins – shit in, shit out –, mas agora você sabe por onde começar a inovar na sua empresa sem precisar de um centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) – estas siglas ficam maiores a cada ano.

Você não precisa de um especialista para combinar os produtos que já tem. Você pode muito bem estar atento ao que acontece na sua região e buscar novos processos e produtos para combinar com as ideias que você já tem – quem sabe você pode comprar o próximo iTunes e desenvolver a próxima plataforma que vai revolucionar de maneira “radical” o seu mercado?

Onde estão as melhores ideias?

Com certeza sua empresa não tem todas as melhores ideias, talvez não tenha ideia nenhuma afinal de contas, mas não se desespere. Boas ideias não estão pipocando a nossa volta. Na verdade, as chances de que as boas ideias estejam pipocando mais longe de você é o mais provável.

O resultado da inovação pode ser parcialmente resultado da intermediação da tecnologia, que é:

Ideias de um grupo podem resolver os problemas de outro, mas apenas se as conexões entre as soluções existentes e os problemas puderem ser feitas através das fronteiras entre eles, ou seja, tanto soluções quanto problemas precisam ser compartilhados. Quando estas conexões ocorrem, ideias existentes podem parecer novas e criativas conforme elas mudam de forma e se combinam com outras ideias para atender a necessidade de novos usuários. Estas novas combinações são novos conceitos ou objetos por que foram construídos de ideias existentes mas previamente desconectadas (Dhanaraj e Parkhe, 2006).

Participar de diferentes grupos, envolver-se com diferentes clientes, fornecedores, empresas, startups, universidades, centros de pesquisas, projetos na comunidade, etc. Todos são fontes de ideias que podem contribuir direta ou indiretamente com o levantamento de ideias para a sua empresa ou para o negócio que você está pensando em criar.

Falta tempo

Esta é uma das principais causas de você não conseguir sair da empresa e descobrir novas ideias. A falta de tempo compromete a sua performance como gestor e como funcionário. Se você não tem tempo para ir atrás da inovação que pode garantir a performance futura da sua empresa, então não posso lhe ajudar.

O tempo é um recurso que você decide usar com base na importância e na urgência das suas atividades. Se você só resolve o que é urgente, está deixando de lado as coisas importantes e que demoram mais tempo, e a inovação é uma delas.

Se você não tem tempo para pensar na inovação, alguém vai ter e vai tirar o seu lugar. Se com base neste argumento, ainda assim você não tiver tempo, então é bom contratar alguém que tenha e faça este trabalho enquanto você gerencia a empresa.

Next steps

Para inovar, você não precisa investir milhões. Embora dinheiro ajude, primeiro mude sua perspectiva sobre a inovação. Você precisa de tempo. Se tempo é um problema para você, repense suas prioridades e urgências.

A inovação radical, geralmente é a conexão de ideias antigas de forma nova, então não tente reinventar a roda, mas seja ousado nas suas proposições.

Se você precisa separar um espaço para inovação, então um Hub de Inovação pode ser uma alternativa para a sua organização.

E agora, qual será a sua próxima desculpa para não investir em inovação?

 

Referências

DHANARAJ, C.; PARKHE, A. Orchestrating Innovation Networks. Academy of Management Review, v. 31, n. 3, p. 659–669, jul. 2006.

JIMÉNEZ, A.; ZHENG, Y. Tech hubs, innovation and development. Information Technology for Development, v. 24, n. 1, p. 95–118, 2018.

LEIFER, R. Implementing radical innovation in mature firms: The role of hubs. Academy of Management Executive, v. 15, n. 3, p. 102–113, 2001.